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Metade – Oswaldo Montenegro

Julho 8, 2008 · Deixe um comentário

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.
.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas,
como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
.
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéiae
a outra metade é canção.
.
E que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.

Categorias: incompreensão · poesia · tédio · vida
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